Pensamentos de uma atriz careca

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Toda vez que eu aceito um trabalho – entre outras coisas, eu sou atriz – tenho pra mim que viverei o meu melhor momento, por isso me dedico de corpo e alma as coisas que faço porque é como se eu dissesse as pessoas “aí vai o meu coração” e nessa profissão, como em qualquer outra, dedicação é substantivo próprio…

E foi exatamente assim que eu me senti quando recebi a proposta para gravar o clipe da música “mozão”. Havia uma imposição significativa: ficar careca. Não pensei imediatamente na estética – muito menos no dia seguinte a gravação. Tentei pensar apenas na história narrada pelos versos da música e, mergulhei na composição desse personagem.

Lembrei-me imediatamente de atrizes que aceitaram esse mesmo desafio e, de outras que desistiram no último segundo – porque não é fácil. Vivemos em um mundo de símbolos e seus poucos significados, tudo se limita ao julgo do outro… A profissão de atriz está diretamente ligada a sua imagem e, se olharmos esse mundo atentamente, veremos sempre mulheres com cortes cuidadosamente escolhidos para dar vida aos personagens, mas quantas vezes você viu uma atriz careca?

Ser atriz me permite ser muitas – uma faceta deliciosa, mas é mais ou menos como colocar uma máscara na face. Quando descubro o rosto o que exibo é uma mente e um corpo são – tudo se limita ao personagem, mas para ser essa outra pessoa precisei trazer para mim as sensações, os medos e os infinitos questionamentos que as mulheres enfrentam ao descobrir o câncer de mama. Não é fácil saber-se doente, enfrentar o tratamento, o medo e consequentemente a perda de cabelo. Sobreviver a doença é o objetivo, mas é preciso também sobreviver a dor, a solidão, a tristeza – a sensação de fracasso que toma conta do corpo…

Por tudo isso, digo com certeza que foi um dos mais belos trabalhos que realizei – e saio de cena sem me esquecer dos olhares surpresos e incrédulos porque infelizmente somos as roupas que vestimos, o corte de cabelo que escolhemos, as jóias que adornamos, as cores que preenchem nossa face, as rugas que se multiplicam em nossa pele. Só não somos de fato o que deveríamos ser: pessoas.

Eu digo com certeza que não sou a Thais de antes – sou outra porque a arte a qual me dedico me presenteou com essa possibilidade e como diz Rubem Alves em uma de suas crônicas: “ser bonito é uma coisa muito boa. É uma das maiores felicidades da vida. Mas essa é uma felicidade emprestada – porque ela mora nos olhos das outras pessoas. Eu não me basto. Eu preciso de algo que eu não tenho”.

*Fotógrafa: Bella Tozini

* texto escrito e publicado originalmente na Revista Plural – edição cafeína na veia/março 2014 que pode ser lida em www.pluralrevista.blogpsot.com

Assista ao clipe em que vivi uma mulher com câncer de mama.