Caos é tudo aquilo que a gente não entende

 

É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela cintilante.

Friedrich Nietzsche

 

Alice

Tenho o meu próprio mundo. Como o mundo de Alice, num universo que construo só para mim, cheio de versos, de brilhos e aromas. Um respiro. O momento de colocar algum caos em toda ordem sem reverso. Ser, quem eu quiser ser. Viver a pele de todas as personas que posso ter em mim. Estudar cada palavra, cada gesto de forma a encontrar algo singelo e lúdico neste coração. É mais fácil assim. Enfrento a vida de forma mais leve. No meu caos, sobrevivo melhor à realidade.

O reflexo no espelho, minhas sombras, meu corpo. Nada fica igual quando entro neste processo na construção de uma nova vida, dentro das minhas vidas já vividas. Sou uma personagem. Danço e canto no tablado: Nada era o que é, porque tudo já é o que não é numa fração de segundos. E o que não fosse, seria. Porque no meu mundo tudo acontece. Como num país de eternas maravilhas, corro contra o tempo, o meu tempo, o seu tempo, o tempo de todos nós. Piscando os olhos acordo de um sono profundo, renascimento de uma nova casca. Com entranhas e estômagos para respirar o alento das personas que crio dentro deste invólucro. Minhas máscaras. Como a borboleta posso ser a mais bela das viventes, explorando cores e suspiros, ou posso ser a morte, o medo e tuas mais diversas formas de insegurança. Não vejo nada, não sinto nada, e nada mais sou. Meus olhos se cegam como a tartaruga que entra dentro do próprio casco. Tiro férias momentâneas e me afasto de forma expontânia deste mundo e de mim mesma. Tudo programado, controlado. Consigo voltar na hora em que eu bem entender. Mas me divirto. Sou o som das batidas do meu coração. Um parto dentro do meu próprio corpo, e daqui parte um feixe de luz anáfana que brilha de forma intensa com uma energia surreal. Assim de forma inexplicável, conquisto platéias e multidões que aplaudem fielmente. Um público seleto de gente que paga para estar alí, brincando dentro do meu jogo, entrando na minha sintonia. Eu dou o rumo. E as pessoas me seguem. Elas simplesmente acreditam no meu conto, vivem a minha vida, sorriem e choram com todas as peripécias e desventuras que apronto. Brinco com as horas. Meu tempo é quando. E quando tenho tempo para viver neste plano novo. Reinvento o sempre, me dou para o presente. Quero e sou. Vivo e morro. Enterro as histórias e volto para mim. Em pé agradeço. E assim mais algumas horas de trégua, para tudo de novo voltar a acontecer. E em poucas horas novamente ali estarei, o público será outro. A energia será outra, e de uma forma diferente, viverei as mesmas coisas. Catapultando pessoas em memórias passadas e futuras. Tornando esta a minha própria história de vida. Sendo atriz. No caos, eu me renovo, eu me encontro, eu revivo, reinvento e confesso que não entendo o que apronto.

Texto escrito para a Revista Plural

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