A minha realidade também é minha ficção

Atriz Thais Barbeiro_Por Jeff Porto_11

Tenho duas experiências pessoais recentes para contar… estive ano passado a convite de dois grandes diretores para uma leitura de texto para a protagonista de uma série de TV… Eu não conhecia a personagem… e na primeira leitura… seria apenas eu mesma, me colocando de forma bem natural, nas situações que a personagem ia vivendo. Os textos eram impressos na hora, e eu lia o desconhecido, no escuro. Sem saber quem ela era, ou que situação viveria a seguir. Era apenas a Thais a tatear o texto… uma espécie de parede branca no escuro. Não fui aprovada para viver a protagonista. Um dos diretores disse que eu era meiga e simpática demais para viver aquele papel. Eu sorria muito… isso não agradou. A Thais que eu sou, ele não gostou. E eu não tive tempo de tentar ser a outra… tivesse tempo, o time da atuação faria a diferença. Vestir-se de alguém não é tão simples ou fácil…  a construção de um papel não é um gesto mecânico… Eu precisaria me trancar dentro de mim, em algum lugar secreto… para que a protagonista da história pudesse vir à luz da vida, como numa gestação que leva nove meses para que o parto aconteça… Esse tempo é o mesmo do ator… é necessário se preparar para mergulhar na vida daquela persona, sabendo o antes e o depois. A linha de pensamento… sua trajetória: seus amores, dúvidas, medos, ansiedades… o seu jeito de ser e enfrentar determinadas situações. E para TV e Cinema que possuem linguagens extremamente naturalistas, o tempo é curto — quase inexistente. E a demanda de atrizes querendo atuar é imensa… é muito mais fácil achar a atriz com o “jeito certo” para determinado personagem. Talvez por isso, muitos atores, em cena, representam a si mesmos e perdem a possibilidade de ousar, como outros tantos já o fizeram… Se vestirmos sempre os mesmos personagens em cena, qual a graça disso tudo? O mais divertido é poder ser muitas personas; muitos corpos, vozes. O que me leva a segunda história: fui convidada a fazer um espetáculo teatral, onde dobro o mesmo papel com outra atriz. Uma experiência desafiante… entrar em cartaz num processo já existente há anos. Tive apenas um mês de ensaios… e o resultado não poderia ser outro porque cada pessoa é de um jeito, e a personagem vai acabar diferente também por causa disso: um corpo diferente, uma voz diferente. Tudo muda, mesmo que as falas e as marcas sejam iguais, mesmo que a direção seja a mesma: você é outra pessoa. E definitivamente outro personagem nasceu de minhas entranhas. Uma vivência muito marcante… No processo de me preparar para viver algo, muito da minha realidade é deixada para trás, mas não tem jeito, muito do meu eu, também vai comigo nessa viagem…

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