A arte de ficcionar a realidade

“Esta é a minha vida.
Este jogo conjunto.
Subimos todos juntos,
Em um navio que parte,
para longe, bem longe,
Para descobrir uma terra,
legendária e intacta…
Eu queria viver isso todos os dias,
até a minha morte.”

Ariane Mnouchkine

 Berliner Ensemble Sonnets stage B

Senhoras e senhores – eu os convido a conhecer o meu palco, onde deixo o meu grito e exponho a minha necessidade. Sou uma artista e minhas veias pulsam emoções muitas, de outros, de ninguém. Minhas, suas… como saber?

Eu alcanço o meu público sempre que as cortinas se abrem… através da palavra, do gesto, do olhar. Um único movimento meu, basta para transmutar a realidade, fazendo catapultar um novo estado de consciência.

É a minha maneira de abandonar a realidade dos homens… e te levar comigo para um estado de conforto, tão gostoso como um abraço. Uma viagem para além das coisa reais como as sabemos-conhecemos.

Quando eu piso no palco, sou outro eu…  o eu artista! O eu personagem.
Por alguns segundos, mergulho nesse universo novo, onde tudo acontece através do meu imaginário, que é essa aranha a urdir sua fina teia, que fisga fortemente todo aquele, que se deixa tocar por essa nova realidade, que começa a acontecer muito tempo antes desse encontro entre platéia e palco.

Primeiro o ator se dedica as experimentações, encontrando em seu corpo os muitos sintomas das emoções, que nem sempre são suas: leituras-pesquisas-movimentos-novos-pausas-reflexões-respirações… e a cada novo ensaio, o ator a tudo experimenta, provando de uma nova maturidade.

O ator-pessoa se deixa pelo caminho e vai se transformando em outra coisa,tão naturalmente, que é inegável que, em alguns casos, uma nova substancia nasce.

E o que o público colhe é justamente essa espécie de reinvenção de si mesmo.
Teatro é transe. Ritmo. Um corpo que baila virtuosamente no ar. Tudo gira. Tudo acontece. O ator e o palco são uma mesma coisa. Vitrine… e a melhor parte? É nos dar conta de que não somos nada-ninguém porque dependemos do nosso público, que chega sendo uma coisa e vai embora sendo outra… mas, para a satisfação do artista, leva consigo esse eco mundano-profano-vestido-esculpido-trabalhado que não deixa nada no lugar – tudo muda – inclusive a essência!

E quando os aplausos surgem no ar, é como um despertador a nos devolver o próprio corpo. A realidade e a ficção se tornam unas e a magia está completa.

Obrigada pela visita. Voltem sempre!

Por Thais Barbeiro

Texto escrito e publicado na revista Plural – Edição: Solombra – 2015

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Edição: Lunna Guedes

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